Influenciados pelas redes: como criadores de conteúdo ajudam os turistas #01 — Salvador
Vamos começar uma série nova aqui no rivotravel. Em tempos de redes sociais, como será que as páginas e os influenciadores ajudam os turistas na hora de escolher e montar seus roteiros? Antigamente, quando as pessoas decidiam viajar, buscavam guias de turismo impressos e agências de viagem. Para alguns, hoje isso parece coisa de um passado distante, não é? Sendo assim, separamos algumas páginas de Instagram soteropolitanas que mostram diferentes aspectos da capital baiana. Conversamos também com alguns influenciadores sobre este novo comportamento dos viajantes.
Primeira parada: Salvador
Festa de Iemanjá (E) e pãozinho delícia (D): duas tradições de Salvador postadas no As Melhores Coisas de Salvador
Não preciso nem explicar o foco da página As Melhores Coisas de Salvador (@asmelhorescoisasdesalvador), não é mesmo? Os 235 mil seguidores “viajam” por inúmeras opções em gastronomia, cultura e lazer da capital. Segundo a criadora de conteúdo e especialista em comunicação Larissa d'Eça, o verão baiano traz um crescimento da procura da página por conta do maior fluxo de turistas. “O aumento já é visto alguns meses antes, quando as pessoas começam a seguir a página para programar suas viagens. Mas quando chega dezembro, rola um grande boom. Além dos turistas em si, temos nesse período o retorno de soteropolitanas e soteropolitanos que moram fora e vêm para celebrar as festas de fim de ano ou curtir suas férias”, conta. Ela explica que o tipo de post que faz mais sucesso com turistas é variável e depende da época, mas no geral é o que traz roteiros, listas ou restaurantes de frutos do mar. “Acredito que sejam o de maior destaque porque na hora de organizar uma viagem, roteiros enumerando os melhores destinos ajudam bastante, principalmente se for uma viagem de curta duração. Já a gastronomia (que já) faz sucesso com quem é daqui e tem milhares de opções, imagine com quem é de fora? Não tem como não se impressionar com uma bela imagem de moqueca borbulhante, por exemplo”, diz.
Larissa acredita que as redes sociais são uma boa plataforma para divulgar o turismo de uma cidade. E vai além. Na opinião dela, aplicativos como o Instagram promoveram um grande movimento nos últimos anos entre os usuários: o de turismo na própria cidade. Sendo assim, explica a especialista, perfis com dicas do que fazer em determinado local pipocaram. “Isso é ótimo porque dessa forma, ao planejarmos uma viagem, conseguimos ter acesso a diversas sugestões, que muitas vezes ficavam restritas a pontos turísticos já batidos. Além disso, você consegue segmentar mais sua pesquisa. Por exemplo, se eu gosto de conhecer bons restaurantes numa viagem, vou procurar uma página que se dedique a me mostrar o que comer em determinado local, e a partir daí traçar o meu roteiro”, conclui.
Frame de vídeo sobre a mostra Dona Fulô e outras Joias Negras, no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (E); e frame de vídeo de obra exposta no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (D), obra do Coletivo (71) Interferências com direção criativa e fotografia de Laryssa Machada e performance de Vírus Carinhoso
O Guia Negro (@guianegro) é outra página que eu adoro e indico muito. Ela produz conteúdo relevante e de alta qualidade sobre turismo e diversidade para os 104 mil seguidores, além de organizar caminhadas por diversas cidades, com foco na história negra no Brasil. Quem conversou com a gente foi Guilherme Soares Dias, fundador do Guia “Historicamente (houve) um apagamento dessas histórias, desses personagens, desses lugares. E as redes sociais dão a oportunidade a outros criadores, isso sai da mão da mídia tradicional, que é quem estava produzindo conteúdo, e essas pessoas podem produzir conteúdo, então elas podem contar suas próprias histórias”, relata Guilherme. Ele lembra que as redes sociais são muito importantes para as novas gerações e que hoje elas são o principal canal de comunicação do Guia, que surgiu em 2018 já como rede social. O criador observa que antes daquele ano já havia muita coisa sendo feita, mas que o conteúdo não alcançava as pessoas, não ia até ao público final.
Segundo o criador, as pessoas que chegam ao Guia Negro querem muito visitar o centro histórico de Salvador, bem como as igrejas do Rosário dos Pretos e do Senhor do Bonfim, e também algumas praias como a da Ribeira. "Acho que o principal relato que a gente recebe dos turistas é saber que Salvador é um lugar em que elas se conectam, um lugar que toca elas, como se estivessem voltando pra um lugar em que ela já tinha estado antes mesmo de ter vindo pela primeira vez. A luz de Salvador é algo que é bastante peculiar e que também chama a atenção, (assim como) as pessoas daqui, o nosso acolhimento e a comida são alguns dos relatos que a gente ouve bastante dos nossos turistas”, acrescenta Guilherme.
A escada mais bonita de Salvador (E), segundo o Guia do Soteropobretano, é a do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), no Solar do Unhão (e eu concordo). Na direita, foto de Dander Freitas na Lavagem do Bonfim
Agora vamos para uma outra página que também é queridinha de quem mora por Salvador: o Guia do Soteropobretano (@soteropobretano). Iuri Barreto, o criador da página (que é muito engraçada), conta que a motivação para produzir conteúdo para as redes sempre foi a mesma: uma pessoa sem grana pra viajar e que decidiu turistar na própria cidade. E quem ganha são os 340 mil seguidores! “Eu criei o perfil, em setembro de 2012, para compartilhar os conteúdos com outras pessoas como eu, e desenvolver uma comunidade de apaixonados por Salvador. O Sotero sempre teve esse caráter de comunidade e eu particularmente prefiro essa classificação do que a de influenciador”. Ele conta que o que mudou nesses anos diz mais sobre o tamanho da página e o quanto isso interfere no conteúdo produzido. Ou seja, quanto maior o alcance, maior o cuidado com o que se publica. Não dá pra criticar qualquer coisa sem pensar no impacto que aquilo pode causar, seja a um estabelecimento ou à vida de alguém, observa o nome por trás do Soteropobretano.
Iuri faz uma análise sobre o setor que movimenta milhões de viajantes em Salvador (em 2024 foram 9 milhões de pessoas visitando a cidade). “Infelizmente, as redes sociais são as melhores plataformas para divulgar o turismo. E digo 'infelizmente' por dois motivos. Primeiro, porque a massificação e o turismo predatório dos ditos locais 'instagramáveis' é um efeito nocivo diretamente causado pelas redes. Segundo, nem mesmo o melhor canal do Youtube substitui um bom site, completo, organizado e disponível para consulta”, afirma. Mas, segundo Iuri, pela facilidade de alimentação, as redes acabam sendo o principal canal de escoamento dos conteúdos. Pela experiência do criador do Guia, produzir e manter um site atualizado dá trabalho e não traz o resultado financeiro que uma rede pode gerar com as parcerias publicitárias (“os famosos 'publis', que eu também faço e ajudam a pagar as contas do mês”, diz), além de terem perdido espaço para os roteiros sob medida entregues por inteligência artificial. Ele conhece pessoas que montam a viagem toda pelas dicas do ChatGPT. “Acaba que todo mundo foca mais nas redes do que em plataformas de domínio próprio, e o público vai atrás”, conclui.
E quem mais acompanhar?
Amanda Mota (E) traz dicas sobre o que fazer na capital baiana; já o Ruivo (D) mostra aspectos históricos, culturais e sociais da cidade
Existem inúmeras páginas produzindo conteúdo de qualidade sobre Salvador nas redes sociais. Sugiro muito os influenciadores Amanda Mota (@amoramota) e o Ruivo Baiano (@ruivobaiano). A primeira também mostra curiosidades da cultura e gastronomia locais, com muitas dicas para baianos e turistas. Já o Ruivo Baiano estourou em 2024 trazendo conteúdos sobre a história (muitas vezes desconhecida pela maioria) de pontos atrativos da cidade.
Bom passeio!